Como a Pilsen inspirou outros estilos de cerveja



Entenda por que a bebida surgida na República Tcheca motivou a criação outros tipos de cerveja mundo afora. Todos queriam copiar a Pilsen, a cerveja clara e leve que conquistou o mundo.

A intenção era a mais prosaica possível: beber uma cerveja agradável, abandonando de vez aquele líquido áspero, escuro e defumado que era servido por toda a região da Bohemia, na República Tcheca. Os que os habitantes de Pilsen não imaginavam é que, ao criar a cerveja batizada com o nome da cidade, estariam reinventando a indústria cervejeira em escala mundial. Nascia ali a primeira Pilsen, mas também um estilo que, pelas décadas seguintes, iria influenciar o surgimento de inúmeros outros tipos de cerveja mundo afora, assunto da quarta reportagem da série Pilsen, uma paixão mundial.

Como sempre acontece em eventos de proporção global, uma conjunção de fatores contribuiu para a popularização da Pilsen e para a consequente busca por estilos inspirados na cerveja clara, leve e de espuma cremosa feita pelos tchecos. A revolução industrial foi o maior facilitador dessa multiplicação. A substituição dos métodos fabris manuais pela mecanização permitiu a produção em massa, propiciando um grande volume de exportação para a Alemanha, berço cervejeiro europeu e onde os principais predicados da Pilsen se espraiaram por outros tipos de cerveja.

“Todos queriam a cerveja clara. E a criação de outros estilos claros foi uma resposta a essa demanda. Um exemplo foi a Munique Helles" – afirma o beer sommelier e consultor de cervejas Luís Celso Júnior.

No gosto da Oktoberfest

A Helles foi criada em Munique em 1894, com o propósito de competir com a Pilsen, sobretudo para diminuir as expressivas importações do país vizinho. Ela é um pouco mais escura do que sua congênere tcheca, mas igualmente suave. O sucesso foi imediato e, com o tempo, a Helles passou a ser a cerveja mais servida na Oktoberfest, maior e mais tradicional festa cervejeira do mundo.

Outro fator que colaborou para o surgimento de novos estilos inspirados na Pilsen foi a restrição ao consumo de álcool. Segundo o cervejólogo mineiro Ronaldo Morado, autor do essencial livro Larousse da Cerveja, o mundo começava a viver momentos de temperança e isso estimulou o surgimento de cervejas menos alcoólicas, como era a Pilsen. “Nessa onda de cervejas claras e menos alcoólicas, surgiram a German Pilsen, em 1872, a Dortmund, em 1890, e a Helles, em 1894”, explica Morado.

Outro estilo da época, a Munique Marzen – que era a cerveja servida na Oktoberfest antes da supremacia da Helles -, é tida como ancestral da Pilsen. Sua receita já previa o uso da levedura Lager em 1841, um ano antes do surgimento da Pilsen original, que acabou entrando para a história como marco do novo sabor. Conta a lenda que, ao desembarcar na República Tcheca para criar a primeira Pilsen, o mestre-cervejeiro bávaro Josef Groll trazia consigo um bocado de leveduras Lager. Com o sucesso da cerveja tcheca e a súbita paixão dos consumidores por bebidas claras, as marcas que se caracterizavam pelo uso de levedura Ale, mais forte e mais escura, foram se adaptando à nova tendência.

“Outros estilos tradicionais, todos alemães, que utilizavam leveduras Ale, passaram a usar Lager: Bock, Doppelbock, Dunkel, Rauchbier e Schwarzbier. Mas elas mantiveram as características de cor e aroma muito próximas do original”, discorre Ronaldo Morado.
Os estilos citados por Morado têm coloração mais escura, variando do cobre ao rubi e ao marrom. Já a Vienna e a Dortmunder, outras vertentes da Pilsen, são mais claras. Ambas são cervejas equilibradas, suaves e elegantes, sendo a Dortmunder um tanto mais picante e a Vienna mais tostada.

Pilsen inspirou a criação do estilo Munique Helles, que caiu no gosto da maior festa cervejeira do mundo, a Oktobertfest de Munique, na Alemanha.

Mais leveza com a American Lager

Todas essas cervejas surgiram na Europa, em geral na Alemanha. Quando os alemães cruzaram o Oceano Atlântico para chegar aos Estados Unidos, levaram consigo o método de fabricação de suas cervejas. Contudo, esbarraram na Lei Seca. Havia uma profusão de cervejarias no país, mas a proibição fez as pequenas fábricas venderem seu maquinário. Quando a Lei Seca foi abolida, restavam poucas indústrias e o começo da Segunda Guerra Mundial tornou escasso o lúpulo e o malte, matérias-primas básicas da fórmula cervejeira germânica.

“Nessa época sobraram apenas grandes cervejarias nos Estados Unidos. A partir de pesquisa com os consumidores, foram suavizando a cerveja. Assim, criou-se um novo estilo inspirado na Pilsen, chamado de American Lager”, relata Luís Celso Jr.

Com essa inovação, surgiu a mais popular das cervejas influenciadas pela Pilsen. Atualmente, a American Lager domina os mercados mundiais. A despeito de eventual criação de novos estilos descendentes da bebida fermentada por Josef Groll em 1842, a American Lager é praticamente o fechamento de um ciclo. Embora não tenha a complexidade da gênese tcheca, ela continua conquistando novos consumidores e regando velhas amizades todos os dias

Fonte: Globo.com

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