A alma brasileira da Pilsen



Como o estilo virou o preferido pelos quatro cantos do país. Clima quente na maior parte do Brasil contribuiu para a Pilsen cair no gosto por aqui.

Bendito seja Napoleão. Quando o imperador francês ordenou a invasão de Portugal, em 1808, não restou alternativa à família real senão fugir para o Brasil. Na bagagem, o príncipe-regente Dom João VI trazia inúmeros produtos exóticos para garantir a sua boa mesa, entre os quais uma carga de cerveja. Dois séculos depois, o Brasil é terceiro maior fabricante mundial da bebida, com uma produção superior a 14 bilhões de litros anuais. No consumo, nenhum estilo bate a Pilsen, responsável por 98% das vendas nos país. Na última reportagem da série Pilsen, uma paixão mundial, vamos mostrar como esta cerveja conquistou os brasileiros, tornando-se onipresente na cultura popular.

Quando Dom João VI desembarcou em Salvador, já havia uma lenda de que perto dali, no Recife, bem antes um alemão visionário chamado Maurício de Nassau havia trazido para o país uma fábrica de cerveja desmontada. Nassau havia governado a colônia holandesa no Nordeste de 1637 a 1644, e junto com um grupo de sábios revolucionou a região. Dada a origem germânica, por certo Nassau deveria ser um apreciador de cerveja, mas não há registros históricos que seja dele a primazia da fabricação nacional.

O fato comprovado é que foi a abertura dos portos, em 1808, que inaugurou no país o hábito de se beber cerveja, com a chegada dos primeiros carregamentos em barricas importadas da Inglaterra. À época, a cachaça era a iguaria alcoólica mais consumida por aqui.

Mas foi só em 1836 que surgiu a primeira notícia sobre a fabricação de cerveja no Brasil. Um anúncio publicado pelo Jornal do Commercio, do Rio de Janeiro, dizia que “na Rua Matacavalos, número 90, e Rua Direita número 86, da Cervejaria Brazileira, vende-se cerveja, bebida acolhida favoravelmente e muito procurada. Essa saudável bebida reúne a barateza a um sabor agradável e à propriedade de conservar-se por muito tempo".

Em 1850 já existiam várias fábricas, em especial no Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul, onde havia a maior concentração de imigrantes alemães. A preferência pela Pilsen, contudo, se deu após o fim da Lei Seca nos Estados Unidos, em 1933. Com a proibição da venda de bebidas alcoólicas, a maioria das cervejarias americanas havia vendido o maquinário. Segundo Daniel Wolf, beer sommelier, juiz internacional de cervejas e diretor da redemestrecervejeiro.com, quando a lei caiu essas máquinas estavam de posse de poucas empresas, cuja produção se concentrou no estilo Pilsen, mais suave, refrescante e menos alcoólico do que a bebida vendida anteriormente.

“Os consumidores já não aceitavam o sabor das cervejas de antigamente. A indústria então percebeu que precisava fabricar cervejas mais leves. No Brasil aconteceu algo parecido, até pelo paladar dos brasileiros, que não apreciam comidas ou bebidas condimentadas”, opina Wolff.

Cereais não-maltados deixaram a Pilsen ainda mais leve e refrescante.

A introdução de outros cereais

Como não havia cevada suficiente atender a demanda das fábricas, desde o princípio passou-se a usar cereais não-maltados na cerveja brasileira, como milho, o que colaborou para reduzir o teor de álcool, facilitando o drinkability, ou seja, a vontade de tomar mais uma. O espírito mais sociável dos brasileiros também teria contribuído para a popularização da bebida.

“Por ser uma bebida que se compartilha e se pode beber mais quantidade do que cachaça e vinho por exemplo. É muito ligada a festas e convivência das turmas. As localidades distantes produziam do jeito que podiam. Se não tinham todos os insumos, substituíam por algo local e próximo. A cerveja não tem o mesmo terroir do vinho. Penso que nosso terroir é a alma do cervejeiro. A forma como traduz em cervejas suas vivências e sua cultura.”, diz Micael Eckert, sócio da cervejaria Coruja.

Outro fator preponderante para a rápida aceitação da Pilsen no Brasil foi o clima. As temperaturas mais elevadas do que em outros grandes mercados cervejeiros, como a Europa, facilitaram a adesão a uma cerveja clara, perfeita para se beber bem gelada. “Como estamos num país tropical, foi a coisa que mais rapidamente se adaptou. Por leveza, pela refrescância da Pilsen. Com uma alimentação também tropical, é muito melhor ter cervejas mais leves no sabor”, afirma Luciano Horn, um dos mestres-cervejeiros da AmBev. 

Para nós, meros apreciadores da bebida que é símbolo nacional, mais importante do que a razão pela qual nos apaixonamos pela Pilsen é o motivo pelo qual seguimos bebendo em média 67 litros ao ano por habitante: a sensação de prazer ao destampar cada garrafa.

Fonte: Globo.com

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