Carnaval das cervejas; a política do município, das cervejas gigantes e das artesanais em Salvador



Foto: Revista Veja / abril.com

Desde 2014, quando a prefeitura de Salvador deu o passo para tornar exclusiva uma marca de cerveja na avenida, a gente vive essa polêmica. Por 03 anos, a Itaipava (Grupo Petrópolis) e a Nova Schin (a época Brasil Kirin. Hoje em dia grupo Heineken) juntas, compraram esse direito por cerca de 30 milhões por ano (15 milhões para cada).

Antes não tínhamos exclusividade, tínhamos a Ambev como patrocinadora oficial do carnaval, quando priorizava o comércio e a comunicação de uma de suas marcas, a Skol. Mas tudo isso sem exclusividade, mercado livre. Eis que veio o carnaval de 2014 e junto a ele muitos questionamentos por parte do público, principalmente por parte dos fãs da Skol, sentindo falta de sua cerveja favorita. Apesar de entender os argumentos de quem é contra essa estratégia, pesando os prós e os contras, eu sou a favor. 

Durante o carnaval de 2014 alguns amigos brincaram muito de me chamar de ACM Neto, por causa de uma suposta aparência entre eu e ele. Nessa brincadeira rolava criticas em voz alta a tal política. Eles pegavam as cervejas das marcas oficiais e gritavam no meio da rua "Olha aqui Prefeito! Tô tomando essa cerveja por sua causa! Por quê você fez isso com a gente?" e repetiram essa brincadeira o carnaval todo.

Lá pelo terceiro ou quarto dia, estávamos em um camarote e eles voltaram a brincar, mas dessa vez eu incorporei a oratória do prefeito e comecei a gritar "Olha aqui vocês! Você sabia que, pela primeira vez na história, o carnaval de Salvador vai ser superavitário?! Que pela primeira vez o carnaval de Salvador não dará prejuízo ao erário público?! Sabe quantas escolas eu vou fazer com esse dinheiro? Quantos postos de saúde? E você não pode tomar uma cerveja de outra marca, em prol da cidade? Pelo benefício de nosso povo?", entrei na brincadeira...

Mas eu falei isso muito alto, de repente o camarote todo ficou olhando para mim, todos assustados e a partir daí, na dúvida sobre saber quem eu era realmente, os garçons me deram o melhor atendimento que alguém poderia ter ali, rsrs... meu copo não passava da metade, sempre chegava um garçom dizendo "cervejinha senhor", virei o prefeito por alguns instantes, rsrs.

Apesar de ter sido um ataque de histeria da minha parte, os argumentos que usei ao representar a figura do prefeito representam o que eu penso. Em 2017 a Ambev sozinha cobriu os 30 milhões e tomou a exclusividade para ela, no ano passado conseguiu renovar por mais 03 anos e a decisão por renovação agora só ocorrerá em 2022, para o exercício do carnaval de 2023.

Com o início da era Skol no carnaval de Salvador, percebi que os argumentos ficaram mais diversificados por parte dos que não gostam dessa política de exclusividade. Passou-se a falar em "privação do direito de escolha", ou que "isso fere o direito do consumidor", enfim... Como eu disse no início, entendo tais argumentos, mas prefiro beber a cerveja oficial do momento e saber que a cidade está arrecadando 40 ou 50 milhões por ano com essa ação, principalmente em um país fiscalmente desorganizado e de municípios extremamente deficitários.

Foto: medium.com

Hoje vivemos outro momento, a gente percebe uma procura grande por parte da população pela Heineken, coisa que em anos anteriores não existia. Percebi também que os recursos que o Grupo Petrópolis investia na exclusividade de rua, agora estão direcionados à excelentes camarotes, bem como ao seu próprio circuito de carnaval, o Carnavalito, dentro da Arena Fonte Nova, uma perfeição de ideia (foto acima). Talvez essa estratégia seja tão boa e eficiente quanto brigar pela exclusividade da rua, digo talvez, por que precisaríamos dos números para ratificar essa impressão.

Enquanto isso o mercado da cerveja artesanal tem se posicionado o mais perto do circuito possível, dois exemplos são a Garagem da Kombita, na rua Professor Sabino Silva, quando você pode ouvir boa música, fazer um esquente, encher seu growler nas 10 torneiras de chopp da casa e ir para a folia, e também a Vila Cervejeira, iniciativa das cervejarias 2 de Julho, Calundu e Híbrida, que se posicionaram a 50 metros da passagem dos trios elétricos (na rua Marques de Leão), com direito a um mirante de visual privilegiado dos artistas. Espero que ano que vem aconteça novamente, mas que haja um melhor planejamento de comunicação e atração de pessoas para o local, tá na hora de parar de achar que a cerveja artesanal, por si só, vai caminhar sozinha na Bahia.

Em tempo, penso que isso seja um fenômeno mundial, as cervejas de larga escala e suas marcas se abraçam aos grandes eventos, esse é um filão pra elas. Por exemplo, a Heineken tem a exclusividade em jogos da Champions League, a maior competição de clubes de futebol do mundo, já a Budweiser tem a exclusividade da NFL e NBA, as maiores ligas de futebol americano e de basquete respectivamente, bem como é a cerveja oficial da copa do mundo.

Essa é a grande tacada dos organizadores, contratos milionários e até bilionários viabilizam a longevidade e sustentabilidade do evento, principalmente quando este tem amplitude mundial, como é o caso do nosso carnaval.

Até o próximo gole!

Marcelo Vasconcelos
Editor e criador do Portal da Cerveja
Os artigos de Marcelo são postados mensalmente, na última semana de cada mês.
Comente, concorde ou discorde, mas participe! ;-)

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