Letras embebidas em malte: como a cerveja influencia a literatura




A profícua e sempre saborosa relação entre os escritores e a bebida alcoólica mais consumida no mundo.

Até beber cerveja ficou difícil — queixa-se.
— O preço?
— Não. A variedade.

Poderia ser uma conversa corriqueira entre dois desconhecidos num supermercado ou refletir a indecisão de dois amigos ante as múltiplas opções da carta de cervejas de um bar. Contudo, o diálogo acima é a abertura da crônica A de Sempre, escrita por Carlos Drummond de Andrade e publicada no livro “De notícias & não notícias faz-se a crônica”, de 1974.

O motivo da inquietação do maior poeta brasileiro mostra o quanto a cerveja pode inspirar grandes artistas. São tantos os poemas, contos, romances e crônicas exaltando a bebida que é possível assegurar à cerveja um lugar de destaque na literatura universal. “Um pouco de cerveja é um prato para um rei”, escreveu Shakespeare em Um Conto de Inverno, tragicomédia teatral criada por volta de 1611.

Ou seja, há quase 500 anos a cerveja permeia a vida e a obra de grandes escritores. Por vezes, ela não só aplacou a sede como ajudou a pagar a conta do bar. Foi o que teria acontecido com Edgar Allan Poe, um dos mais cultuados autores de histórias de mistério e suspense. O poema Linhas sobre a Cerveja foi encontrado pregado em um bar em 1892 e teria sido escrito para sanar a dívida de Poe com o estabelecimento.

Crônicas em mesa de bar

Mesas de bar, aliás, são eternas fontes de inspiração para os literatos. Por vezes, os próprios bares perfazem a obra. Em Confesso que Bebi, o jornalista e cartunista Jaguar traça um panorama saboroso da boemia carioca. Jaguar perfila no livro várias crônicas sobre bares, aperitivos e colegas bons de copo, como Paulo Francis, Tom Jobim e Tarso de Castro.

Quem também faz dos botequins um laboratório para sua produção literária é Reinaldo Moraes. Autor de Pornopopéia, romance recheado de citações etílicas, ele sempre leva a tiracolo um bloco de anotações em suas incursões boemias. Tradutor de notórios bebedores como William Burroughs e Charles Bukowski – este talvez o escritor que mais tenha celebrado a cerveja em seus livros -, Moraes diz que não bebe para escrever, mas que por vezes “a cerveja torna a escrita mais proveitosa”. Normalmente, ele lê suas criações acompanhado de uma gelada.

Máquina de escrever e cerveja

A relação da cerveja com a literatura é tão intima que uma agência de publicidade criou uma engenhoca para a cervejaria tcheca Staropramen. Concebida para percorrer festivais e feiras literárias europeias, a invenção consistia em uma máquina de escrever acoplada a uma torneira de cerveja. Conforme o usuário fosse datilografando suas mal traçadas linhas, a torneira ia enchendo o copo. Surgiram assim poemas e outros textos curtos tão saborosos quanto à espuma que se formava sobre as taças.

E se inúmeros escritores foram influenciados pela cerveja, a recíproca é verdadeira. Há no mercado dezenas de cervejarias que lançaram novos rótulos inspirados em autores ou suas obras. Shakespeare, Poe, Oscar Wilde, Anthony Burgess, Kurt Vonnegut - cujo avô materno foi mestre-cervejeiro -, até mesmo a fábula O Pequeno Príncipe já foi homenageada com uma cerveja.

Ninguém, contudo, parece ter alcançado a proeza da livraria norte-americana Powell’s. Michael Powell, o dono da livraria, decidiu seguir a profissão de livreiro após encontrar em uma caixa de livros um exemplar da primeira edição de Moby Dick, de Herman Melville. Para celebrar o 41º aniversário da livraria, em 2012 Powell se uniu à cervejaria Rogue, de Oregon, nos Estados Unidos. Famosa pelas receitas inusitadas, a Rogue topou produzir a White Whale Ale, uma cerveja inspirada na mais consagrada obra de Melville.

No universo cervejeiro, o termo white whale significa cervejas míticas, escassas e incríveis, perseguidas pelos bebedores. Para produzir uma cerveja tão intensa, Powell e Maier decidiram incluir na receita da White Whale Ale algumas páginas do Moby Dick, devidamente dissolvidas antes da fermentação para evitar a oxidação e eventuais dissabores. A cerveja, uma IPA, se tornou mítica, tal qual a perpétua relação de uma espumante cerveja com as mais belas letras.

Afinal, como diz o poeta Edgar Allan Poe em Linhas sobre a Cerveja:

O que me importa o passar das horas?
Hoje estou tomando cerveja.

Fonte: Globo.com

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