Vinho ou Cerveja, Senhor? - Por Gabriel Mascarenhas



Vinho ou Cerveja, Senhor? 

Eis o tipo de pergunta que gostaria de ouvir com maior frequência em restaurantes soteropolitanos. Nesses restaurantes é comum vermos uma carta de vinhos separadas por países de origem, com descrições contendo as uvas de base e o tipo do vinho (seco, suave, espumantes, entre outros). Porém ao pedirmos a carta de cervejas (se o restaurante possuir uma específica), o comum é aparecer umas poucas cervejas, sendo a maior parte de uma determinada marca de massa ou de uma única cervejaria artesanal. Por que? 

Historicamente, a influência de países europeus, como Portugal e Espanha, fez do vinho a principal bebida dentre as classes mais abastadas, tornando-a uma bebida de elevado status social. A cerveja, em contrapartida, apareceu em nosso país muito tempo depois sob a égide de ser uma bebida popular. Essa diferenciação permanece até hoje. 

A explosão das cervejarias artesanais surgida nas regiões Sul e Sudeste impulsionaram o mercado a nível nacional chegando, então, à nossa mesa. Apesar da qualidade das cervejas artesanais, a ideia de ser uma bebida de massa (e por isso, devendo ser vendida a preços mais baixos) a desqualificaram impropriamente. Não há uma associação entre vinhos finos e vinhos de mesa, vinhos “safrados” e não “safrados” por grande parte do público consumidor. Porém há uma associação entre cervejas por esse mesmo público. O fato é que ainda não nos atentamos pela qualidade das cervejas artesanais e o quanto elas podem possibilitar sabores e aromas que encantariam até mesmo aqueles que dizem que não gostam de cervejas por causa do sabor e que todas as cervejas são iguais. 
Foto: meuestilo.r7.com

Em umas das linhas de frente dessa revolução cervejeira, encontram-se os próprios restaurantes. Apresentar uma cerveja exige particularidades, bem como o vinho. Oferecer uma cerveja ao cliente pode ser uma experiência única, assim como se imagina ser ao vinho. Se o cliente deseja uma apresentação de um espumante, com sua alta carbonatação e sabor particular no apaladar, porque não oferecer uma Biere Bruit? É impressionante as feições espantadas quando o cliente lhe questiona se isto é mesmo cerveja. Ao invés de oferecer um vinho tinto seco para acompanhar um prato a base de carne vermelha, por que não oferecer-lhe uma Brown Ale ou uma Porter de sabores maltados adocicados e tostados, complementando o sabor da carne? 

Em uma gastronomia em que os frutos do mar são intensamente presentes, ao limitar-se a apresentar umas poucas opções de vinho branco, Por que não mostrar no cardápio opções de Witbier ou até mesmo Sour Ales? Ao se sentir perdido quando cliente perguntar qual vinho acompanha um petit gateau, por que não apresentar-lhe uma gama de Russian Imperial Stouts de intensos sabores de chocolates, ou quadrupels com seus sabores e aromas únicos de frutas secas, ou até mesmo krieks e framboises com suas notas evidentes de frutas vermelhas? 

A verdade é que os restaurantes ainda não despertaram para a intensidade e complexidade que as cervejas podem agregar aos pratos oferecidos. Ainda não desvincularam da ideia particular de status social ainda associada ao vinho, concedendo a cerveja seu status de bebida para harmonizações. A cerveja, por ela mesma, já traz intensidades de sabores únicos. Pergunte a um leigo, ou até mesmo a alguém que tem o costume de pedir vinho nesses restaurantes, a verdadeira diferença entre um Merlot, um Carbenet Sauvignon ou um Pinot Noir. Mas pergunte a essa mesma pessoa a diferença entre uma Witbier, uma Dubel e uma Trapista (todos esses estilos pertencentes a uma mesma escola cervejeira, a belga) e a resposta surpreenderá. 

Portanto, a cultura cervejeira merece estar cada vez mais presente no anteparo da gastronomia, não somente limitada a festivais específico. O público precisa perceber a intensidade de sabores que a cerveja possui, não se limitando a associação com cervejas massificadas. A qualidade da cerveja precisa ser melhor observada por quem capitaneia a gastronomia local e fazer o consumidor desassociar cerveja e preço, para associar cerveja e qualidade. E sim, enquanto sommelier de cervejas, gostaria de ver as cervejas especiais serem mais presentes nos restaurantes soteropolitanos e os garçons e maîtres me perguntarem: “Vinho ou Cerveja, Senhor?”

Gabriel Mascarenhas
Beer Sommelier
Membro Acerva-Ba
Membro American Homebrewer Association

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