APA ou uma IPA? Confira tudo sobre as queridinhas amargas!



Olá, meu povo!!! Oia eu aqui de novo trazendo mais um texto sobre diferenças entre estilos de cervejas. Hoje vamos falar das queridinhas amargas APAs e IPAs. Desde que entrei no mundo das cervejas artesanais, a dúvida entre essas cervejas sempre surge, seja em palestras, workshops ou mesmo em mesa de bar. 

Eu como uma boa amante da literatura sempre vou trazer aqui o contexto histórico antes de entrar na parte sensorial da cerveja, ok?! Se história não é seu forte, fique à vontade para pular os próximos quatro parágrafos e seguir direto para a descrição sensorial da breja. 

Vamos lá! Um dos estilos mais antigos de cerveja é Pale Ale (Pale = palavra celta que significa “pálido” e Ale = cerveja de alta fermentação). Estilo que se originou na Grã-Bretanha, por volta de 1640, só recebendo essa nomenclatura após o século XVIII. Produzida com o uso de maltes claros surgiu na tentativa de combater as cervejas escuras da época em que não fossem de baixa fermentação (que não fosse uma Lager). Assim surgiu a primeira cerveja clara do mundo! Só depois em 1842, na cidade de Plzeň, República Tcheca, que surgiu o estilo Pilsen de cerveja, como a primeira cerveja dourada translúcida do mundo para conflitar a popularidade da Pale Ale. 

Hoje existem Pale Ale inglesa, belga e, claro, americana (mais conhecida como APAAmerican Pale Ale). A escola americana de cervejas nasceu copiando o estilo inglês e depois o belga, se adaptando de forma explosiva em aroma, amargor e potência alcoólica. Tudo levado ao extremo. Uma característica norte-americana, né?! Dessa forma, surgiu a APA entre 1970 e 1980 nos EUA. 

Já a IPA surgiu em torno de 1780 durante a colonização inglesa na Índia, onde os navios demoravam em torno de cinco e seis meses para chegar ao seu destino, assim a cerveja se degradava durante a longa jornada marítima e eram entregues estragadas e contaminadas. Lembrando que naquele tempo não havia ainda a bendita refrigeração como temos hoje e como a cerveja servia de alimento para os marinheiros, a solução foi preparar a Pale Ale com uma dose extra de lúpulo. Na verdade, o lúpulo funcionava mais como um conservante natural por causa do seu efeito bacteriostático, mantendo a cerveja conservada por mais tempo. Os ingleses perceberam também que quanto menos carboidrato (açúcar) na cerveja, menos chance das bactérias se multiplicarem, ou seja, menos malte e mais lúpulo para dentro das receitas. Assim surgiu o estilo ‘Índia Pale Ale (IPA)’. 

A English IPA (IPA inglesa) foi esquecida durante muito tempo por causa da chegada do sistema de refrigeração, não sendo mais necessário fazer cervejas tão amargas. E somente mais ou menos duzentos anos depois o estilo ressurgiu nos Estados Unidos, ganhando partidários no mundo inteiro, inclusive na Inglaterra (seu país de origem). Porém essa nova IPA com lúpulos americanos (American IPA) é bem mais lupulada (mais amarga), uma característica dos norte-americanos que conhecemos bem, né?! Agora vamos fazer uma exploração sensorial de como deve ser cada estilo? 


American Pale Ale (APA): 

Coloração: dourado claro a âmbar claro; 
Espuma: branca chegando a bege claro com boa formação e boa estabilidade; 
Aroma: cítrico e floral do lúpulo americano. Ainda podendo aparecer notas de pinho, resina, especiarias, frutas tropicais, berries (frutas vermelhas), frutas de caroço ou melão; 
Corpo: médio-baixo a médio; 
Carbonatação: moderada a alta; 
Sabor: o lúpulo aparece de moderado a alto lembrando as mesmas características do aroma. Certo dulçor por causa do malte de médio a baixo que se equilibra bastante com o amargor, lembrando a pão, biscoito e caramelo. São cervejas frutadas e o diacetil pode estar presente em níveis bem baixos; 
Amargor: 30 a 50 de IBU; 
ABV: 4,5 a 6,2% de teor alcoólico; 
Aftertaste: seco, sem adstringência. 
Dry hopping: se tiver, pois é opcional, lembra a grama cortada não devendo ser de forma excessiva.


English India Pale Ale (English IPA): 

Coloração: dourado a âmbar profundo; 
Espuma: boa formação e estabilidade de espuma em tons marfim; 
Aroma: lúpulo moderado a alto, floral, picante-apimentado ou cítrico. Malte baixo lembrando a caramelo ou tostado é opcional e baixo a moderado frutado é aceitável; 
Corpo: médio-médio; 
Carbonatação: média a alta; 
Sabor: lúpulo também moderado a alto e sabor semelhante ao aroma. Tem menos intensidade de lúpulo e um sabor de malte mais pronunciado que nas versões americanas; 
Amargor: 40 a 60 IBU; 
ABV: 5,0 a 7,5% de teor alcoólico; 
Aftertaste: final seco, amargor podendo se estender até o retrogosto, mas sem ser áspero. Deve ser percebido um leve aquecimento alcoólico; 
Dry hopping: opcional, mas se tiver deve lembrar a grama de forma leve. 


American India Pale Ale (American IPA): 

Coloração: dourado médio a leve âmbar-avermelhado. 
Espuma: branca a bege claro com média formação e boa estabilidade; 
Aroma: intensidade de lúpulos americanos com notas cítricas, florais, pinho, resina, condimentada, frutas tropicais, frutas de caroço, berries e melão como na APA, porém como mencionado acima bem mais intenso. Nota de álcool contido pode estar presente, mas tem de ser mínimo. O frutado da levedura também pode ser encontrado. Comparando com a APA é mais forte e mais lupulada, já em comparação com IPA inglesa tem menos caráter de malte, menos lúpulo e menos levedura (caramelo, pão e tostado) que a sua correspondente inglesa. 
Corpo: médio-leve a médio, ou seja, menos corpo que uma English IPA; 
Carbonatação: média a média-alta; 
Sabor: deve refletir o aroma. O sabor do malte deve ser baixo e limpo, embora sejam aceitas notas suaves de caramelo ou tostado. Sabor de álcool suave nas versões mais fortes e amargor médio-alto a muito alto. 
Amargor: 40 a 70 IBU; 
ABV: 5,5 a 7,5% de teor alcoólico; 
Aftertaste: seco a médio-seco podendo ter um dulçor residual baixo ou nenhum. O amargor e sabor do lúpulo podem permanecer no retrogosto, mas não deve ser áspero. Leve aquecimento alcoólico pode ser notado também, mas sem interferir no equilíbrio geral da cerveja; 
Dry hopping: também de forma opcional, porém muitos cervejeiros utilizam desse artifício nesse estilo, assim pode aparecer um aroma de lúpulo fresco adicional muito desejável, porém não é obrigatório. Notas de grama verde deve ser mínimo, se aparecer. 

Os três estilos de cerveja comentadas devem ser límpidas, porém se tiver dry hopping e não forem filtradas ficam turvas. E, em relação ao drinkability dessas brejas, vai depender muito do quanto você aceita e gosta do amargo. Por isso, preferi não descrever essa sensação de pedir um próximo gole da cerveja, pois é algo muitíssimo subjetivo mensurar o quanto esse amargor vai ser agradável ou não para cada indivíduo. Então prefiro não opinar!!! (risos). Hoje vou ficando por aqui pessoal.

Beijos e Boas Cervejas!

Débora Matos
Sommelière de Cervejas; Especialista em Análise Sensorial e Off-Flavours; 
Certificada pelo Instituto da Cerveja Brasil (ICB), Associação Brasileira de Sommelier (ABS) e Association de la Sommellerie Internationale (ASI – França)
Consultora Especialista do Programa 'Dicas da Saidera' na TV Aratu Online

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